
José Jacyr Leal JúniorCentro de Avaliação Fetal Batel SC Ltda, Secretário Departamento de Convênios da Associação Médica do Paraná, Vice Presidente da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Paraná caf@jacyrleal.com.br
Cansado de ouvir reclamações de dirigentes de empresas, (que dizem pretender prestar "serviços" a saúde), sobre médicos auto-geradores de exames, excessos de consultas, exames, cirurgias e os mais variados tipo de desvios, solicitei na última reunião com essas empresas, que cessassem definitivamente essa "choradeira", e passássemos a propostas mais produtivas. Porém após o desabafo, já em casa descansando, comecei a questionar a nossa profissão.
É culpa do médico que sempre e de uma forma obstinada, buscou soluções para os males dos homens, desde o inicio de sua história. No princípio a medicina devia ser muito barata, pois quase nada podia ser feito. É o sonho dos planos de saúde. Nenhum exame, nenhuma cirurgia a não ser algumas craniostomias para tirar maus espíritos, apesar que eu não faço idéia qual era a LPM 5000 a.C. para tal procedimento.
De lá para cá passaram-se alguns milhares de anos, para só no século passado os avanços mais significativos da semiologia médica e principalmente do sanitarismo, iniciar um processo sem volta para o aumento de custos atuais dos "planos de saúde": a tremenda diminuição da mortalidade e o grande e terrível ganho de longevidade do "usuário".
O último século deu inicio sem dúvida, ao período mais produtivo da medicina. Não sei se foi a descoberta dos RX, a evolução da anestesia ou a invenção (e a intuição de para que servia) do esfignomanômetro, mas foram os primeiros passos para o aumento das prestações dos "planos de saúde da época", já que os médicos passaram a solicitar mais RX e com o descobrimento e uso dos antibióticos, os "usuários" sobreviviam mais tempo, gastando mais em saúde pois não morriam como era a prática usual. Aliás morriam sim de câncer após um tempo, expostos a tantas radiografias.
A anestesia permitiu o inicio de uma verdadeira corrida ao interior do corpo humano, e inúmeras técnicas foram desenvolvidas para tirar o usuário das garras das trevas e recolocá-los de novo pagando, aí sim, prestações cada vez maiores dos planos, já que esses começaram a perceber que haviam pacientes de alto custo. No inicio, as cirurgias registraram até uma diminuição das contas hospitalares, principalmente porque com o impressionante avanço da anestesia, não eram mais necessários pagar tantos auxiliares para segurar o paciente na mesa. Mas com o tempo, os pacientes passaram a sobreviver aos "experimentos" e aqueles auxiliares voltaram para atuar em UTIs rudimentares na época, mas ávidas de novos equipamentos e custos.
O esfignomanômetro também foi um dos grandes culpados. O diagnóstico e progressivo controle da pressão arterial dos usuários, que subia a cada aumento de prestação do plano de saúde, gerando por sua vez mais alterações físicas e emocionais funestas, que por sua vez aumentavam ainda mais as prestações, gerando mais conseqüências, assim por diante. O homem que então já vivia mais tempo, passou a morrer de infarto. Não sei bem se por culpa do plano ou do esfigmo, mas morria. O médico, dono do esfigmo, sentindo-se talvez culpado, voltou as intensas Pesquisas Universitárias e descobriu mais um grande custo para os planos, os exame de rotina: colesterol total, triglicerídeos, HDL, LDL, eletrocardiograma, ecocardiografia, teste de esforço, MAPA... O dono do plano passou a necessitar de todos esses exames.
Cada médico culpado em sua área, passou a ser um ferrenho perseguidor e o maior algoz dos donos de planos de saúde. A evolução da sociedade como um todo, trouxe até os acidentes de carro que antes não existiam e agora entopem os hospitais de usuários de planos, e ...aqueles médicos de pronto socorro ensandecidos, vejam vocês, não querem mais ouvir gritos dos pacientes num simples exame clinico, ao torcer uma suspeita de fratura para ouvir a crepitação dos ossos, rompidos entre si e vão logo pedindo RX, tomografia e gastando com medicamentos.
O médico é um herói. Já escrevi isso outro dia para a revista Veja, quando ela comentava então sobre outra culpa do médico os seus erros. Erro talvez quando inventou uma espécie de colher de ferro, para tentar salvar as mulheres que morriam no parto, e quantos fetos foram assim sacrificados até perceberem, que de certa forma eles poderiam assim também serem salvos e como conseqüência, mais dois a pagar planos de saúde durante toda a vida.
A evolução da obstetrícia, o sanitarismo, médicos, verdadeiros heróis que procuravam em todas as partes darem o melhor de si, foram os culpados da tremenda evolução da humanidade. Toda a tecnologia existente foi agregada a medicina nos últimos anos e o trabalho (culpa) do médico foi decisivo para isso.
Aquela mulher que sobreviveu ao parto, teve mais filhos e todos tiveram problemas e gastos com a saúde. Separou-se do marido devido as despesas médicas e necessitou de terapia. Esse, então alcoólatra, morreu de cirrose após anos de procedimentos de alto custo, que o mantiveram vivo o suficiente para provocar um acidente de carro, que gerou mais gastos aos planos de saúde. A mulher, finalmente ficou velha e para surpresa de todos, pois nunca haviam visto, seus ovários pararam de funcionar, gerando novas consultas já que não suportava mais ondas de calor e insônia. Infartou e foi salva por médicos e infartou novamente por culpa dos médicos, que se não a tivessem salvo no primeiro infarto, não teria infartado uma segunda vez, gerando mais custos. Quantos gastos com próteses ósseas necessárias, devido a densitometrias não realizadas para diminuir custos, e quantas densitometrias caras realizadas, para evitar gastos com próteses não liberadas, pois os planos não sabem mais o que conter?.
Há! a medicina preventiva, outra grande culpada na longevidade dos usuários e do aparecimento e crescimento da geriatria, especialidade nova. Há! tantos exames, há! tantos internamentos, há! tantos gastos...
Tenho então saudades dos tempos das craniostomias a.C. Li um livro outro dia, muito interessante, onde tentavam um grupo de repórteres viajando pelo mundo, provar que o ser humano, enquanto comportamento, não evoluiu uma "vírgula" apesar de tantos avanços tecnológicos. Realmente no final do livro, chega-se a essa conclusão pois os melhores e piores sentimentos permanecem constantes, nesse ser que se julga dono do mundo. Até a intenção e o prazer daquele que cravava uma estaca na cabeça de um doente, acreditando solucionar uma dor, não devia ser muito diferente do olhar de um colega médico nos dias de hoje, buscando uma esperança de cura para a mesma dor, numa tomografia ou ressonância magnética. A tecnologia evoluiu e a dor continua ali. Mas sem dúvida evoluiu, culpa da curiosidade daquele primeiro. E de todos os seus seguidores que somos nós Médicos, talvez um pouco mais bem vestidos, por quanto tempo ? não sei, não tenho muita certeza... Há! Sim tenho que parar agora, lembrei de buscar meu salário no plano de saúde, pois tenho que pagar a prestação da roupa branca.