A CIRURGIA GINECOLÓGICA NO FINAL DO SÉCULO

Sérgio Flávio Camargo- TEGO, TEMa, TCBC.

 

Durante quase toda a última metade do século que está por terminar, esta área da ginecologia permaneceu hibernando sem novidades em todo o mundo e, em nosso país em particular. Pouco se produziu ou se acrescentou desde que Aldridge em 1950 propôs a técnica intrafascial para a histerectomia abdominal. As luzes do século XIX – conhecido como "o século dos cirurgiões"- que nos proporcionaram a anestesia geral com Morton (1846), o descobrimento e efetivo combate às infecções a partir das teorias de Semmelweis (1847), Pasteur (1860) e Lister (1865), redundaram no aperfeiçoamento progressivo das técnicas operatórias a partir de 1878 com Freund e Czerny, parecendo já estar todas desenvolvidas nos anos 50.

Os congressos da especialidade e os formadores de opinião consideravam a operatória ginecológica como de menor importância científica, pois a facilidade técnica da histerectomia abdominal associada às indicações mais precisas, transfusões disponíveis, entendimento da homeostase orgânica e equilíbrio hidroeletrolítico, bem como aos novos antibióticos disponíveis, minimizavam complicações e inibiam os questionamentos em busca de condutas inovadoras ou melhores.

No Brasil gerações de ginecologistas que exerceram suas atividades desde aquela época até a 2ª metade da década de 80, não tinham como romper com esta "monotonia técnica" buscando acréscimo de competência para melhor atender suas pacientes. Paralelamente em quase todo o mundo, a histerectomia era ( e continua sendo) a cirurgia mais realizada nas mulheres pelos ginecologistas práticos, em qualquer hospital de capital ou interior, com índice ainda alto de complicações e suas seqüelas para a paciente e sua família, e o inevitável desgaste para o profissional.

Como a toda ação deve corresponder uma reação igual e contrária, este marasmo da cirurgia ginecológica seria sacudido de forma intensa a partir do final dos anos 80 , entre outras pelas seguintes razões:

Instalado o ambiente acima descrito, e sabendo-se que a Humanidade não anda para trás, como deve se posicionar principalmente o ginecologista prático dos mais distantes pontos do nosso imenso país, com escassez de tecnologia, excesso de metrorragias e anemias por miomas e adenomioses nas mulheres brasileiras típicas, com baixa renda e, necessitando retornarem curadas o mais rapidamente aos seus lares, para o exercício de suas intransferíveis e inadiáveis tarefas? Como e aonde o profissional interessado nas melhores evidências, para aplicá-las dentro do seu contexto sócio-profissional deve buscá-las e, capacitar-se para exercê-las? Aonde está a verdade no meio de tanta informação atual?

Em qualquer fonte que se pesquise "cirurgia ginecológica" atualmente, principalmente as mais dinâmicas como a Internet e os periódicos especializados, nove entre dez artigos referem-se à cirurgia videolaparoscópica. O mesmo ocorre em congressos, simpósios patrocinados, workshops e oportunidades de treinamento. Em primeiro lugar porque cirurgiões e serviços tanto europeus ( Semm, Donnez, Bruhat, Manhez, Hourcabie e outros) como americanos ( Harry Reich, Nezhat, Liu, Kadar, Pelosi, Childers, etc...) publicam trabalhos excitantes, impossíveis de não motivar àqueles que apreciam a arte cirúrgica. Outrossim, no mundo globalizado que se tornou um grande mercado, vender é preciso, e quanto mais uma atividade médica necessitar de aparelhagem cara e de durabilidade efêmera, mais apoio e patrocínio encontrará para sua divulgação.

A convite dos diretores Prof. Flávio Monteiro de Souza e Dr. Sérgio Ramos da OBGYN.net em português, esta seção que hoje inicia em cirurgia ginecológica está aberta para :

Pelas razões expostas acima, embora não se exclua a videolaparoscópica , dar-se-á preferência para a divulgação das vias de abordagem realizadas pela grande maioria dos ginecologistas comuns: abdominal, vaginal, uroginecológica e cirurgia oncológica.

E-mail para contatos: scamargo@sgnet-rs.com.br

Caso os colegas queiram poderão deixar sua opinião no forum de ginecologia e obstetrícia da OBGYN.net Latina
http://forums.obgyn.net/forums/obstet-l/

LEITURAS RECOMENDADAS:

  1. Meeks GR, Harris RL- Surgical approach to hysterectomy: abdominal, laparoscopy-assisted or vaginal. Cl Obstet Gynecol 1997; 40(4): 886-94.
  2. Kovac SR- Guidelines to determine the role of laparoscopically-assisted vaginal hysterectomy. Am J Obstet Gynecol 1998; 178: 1257-63.
  3. Camargo SF, Figueirêdo Netto O – Convicções e Verdades em Cirurgia Ginecológica. FEMINA 1998; 26(7): 603-06.

web edition by sergio.ramos@obgyn.net mai 1999

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