COMO REDUZIR A MORTALIDADE MATERNA NO BRASIL

krikor.gif Krikor Boyaciyan,MD,MSCh* & Nilson Roberto de Melo,MD,PhD**

Indicador de fundamental importância da realidade social de uma nação, a mortalidade materna encontra-se em situação nada confortável no Brasil: 114 mortes para cada 100.000 nascidos vivos. Outro indicador estarrecedor é a mortalidade perinatal, que representa aproximadamente 50% dos óbitos em menores de um ano deste país.
O estudo da mortalidade materna tem se mostrado de grande valia para determinar as condições socio-econômico-culturais de uma determinada população, assim como o nível dos profissionais de saúde e as condições de saúde oferecidas a ela.
É um fato indiscutível que determinadas populações como a do Japão, Canadá e EUA tenham os seus coeficientes de mortalidade materna reduzidos devido aos cuidados instituídos durante o acompanhamento pré-natal. Outros países menos favorecidos possuem coeficientes alarmantes, mostrando que há muito ainda por fazer.
Não resta dúvida que a qualidade e a abrangência da assistência obstétrica e neonatal oferecidas à população, são as principais responsáveis por tais indicadores vergonhosos. No Brasil, os Comitês de Mortalidade Materna têm um papel fundamental no estabelecimento desse diagnóstico e necessitam ser fortalecidos, pois enfrentam muitas dificuldades para funcionar.
A hemorragia, a pré-eclâmpsia/eclâmpsia, a infecção e as complicações do aborto constituem as principais causas diretas de morte materna; a cardiopatia, a hipertensão arterial crônica e a broncopneumonia as principais causas indiretas.
Medida recente, que merece aplauso, é a divulgada pelo Ministério da Saúde, que define o óbito materno como evento de Notificação Compulsória para a Vigilância Epidemiológica (Resolução 256/97, homologada em 12/02/98).
Outra medida de capital importância foi a instituição do Projeto Maternidade Segura, num esforço conjunto entre o Ministério da Saúde, FEBRASGO, UNICEF, OPAS e FNUAP, para o credenciamento de instituições que promovam a assistência integral à saúde da mulher e da criança. Para ser credenciada como Maternidade Segura, a instituição de saúde deverá atender a pré-requisitos, cuja implementação incorrerá na melhoria da qualidade de atendimento.
Como estratégia principal, o aumento da cobertura e a melhoria da qualidade da assistência médica representam as principais medidas a serem adotadas, o que inclui o combate à indicação abusiva de cesáreas, fator sabidamente agravante do alto índice de mortalidade materna.
É de competência da rede hospitalar ofertar equipamentos e condições para o atendimento médico, além de incrementar os bancos de sangue tendo em vista os elevados índices de óbito por hemorragias, além de um rigoroso controle de infecção hospitalar.
Faz-se necessária a reativação de leitos de maternidade e uma atenção especial à gestação de alto risco, criando ambulatórios de especialidade que possam suprir essa lacuna no atendimento pré-natal.
É atribuição dos hospitais a realização de reuniões anatomo-clínicas com o intuito de aprimorar as equipes médicas, bem como prevenir para que um erro não se repita.
Salienta-se, ainda, a relevância da atuação das equipes multiprofissionais nos diversos estágios da vida da mulher, como no planejamento familiar, escolhendo o melhor momento para a gravidez, na tentativa de diminuir os índices de morte materna por abortamento provocado, bem como no suporte ao pré-natal precoce, dando condições para melhor aderência à consulta, facilitando a realização de exames complementares de forma mais ágil e eficiente, contribuindo assim para a diminuição da patologias intercorrentes no ciclo gravídico-puerperal.

*Ex-Professor/Mestre em Obstetrícia pela UNIFESP/EPM. Secretário Geral da SOGESP.
**Professor Assistente Doutor em Ginecologia pela FMUSP. Presidente da SOGESP.

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