Comparação entre a análise visual e a computadorizada de registros cardiotocográficos anteparto em gestações de alto risco

Autor: Corintio Mariani Neto

Orientador: Prof. Dr. Anibal Faúndes

Tese de Doutorado apresentada à Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp em 21/10/99

RESUMO

Introdução. A cardiotocografia anteparto tem sido amplamente utilizada nas últimas duas décadas para avaliação da vitalidade fetal em gestações de alto risco e, há algum tempo, vem recebendo críticas em relação à reprodutibilidade dos laudos emitidos por interpretação visual. Recentemente, introduziu-se a análise computadorizada a fim de eliminar as possíveis dúvidas do examinador na leitura dos registros. Este estudo teve o objetivo de avaliar a consistência da análise visual de dois observadores independentes e compará-la à computadorizada, quanto ao laudo final e suas implicações clínicas.

Metodologia. Estudo prospectivo de validação de teste diagnóstico englobando 120 gestantes atendidas no Hospital - Maternidade Leonor Mendes de Barros, em São Paulo, durante o ano de 1998. Avaliou-se o grau de concordância entre as análises visuais independentes dos dois observadores e entre o método da análise visual e da computadorizada (System 8002), bem como, determinaram-se e compararam-se os indicadores de desempenho diagnóstico dos dois métodos (sensibilidade, especificidade, acurácia, VPP e VPN) em relação a parâmetros indicativos de resultado perinatal anormal: pH do sangue da artéria umbilical < 7,20; índice de Apgar de 1o e 5o minutos < 7; admissão na unidade de terapia intensiva neonatal e internação do recém-nascido por mais de 7 dias. Para análise estatística, foram utilizados o coeficiente kappa, o teste exato de Fisher, a distribuição binomial e o teste de McNemar para amostras emparelhadas.

Resultados: Observou-se taxa de concordância interobservadores de 92,5% (kapa = 0,76), enquanto que a comparação entre os dois métodos de interpretação resultou numa taxa de concordância de 71,7% (kapa = 0,41). A sensibilidade da análise computadorizada para os parâmetros indicativos de resultado perinatal desfavorável foi superior à da análise visual, porém essa diferença não mostrou significância estatística. Por outro lado, a análise visual apresentou especificidade para os mesmos parâmetros, analisados individualmente ou em conjunto, maior que a análise computadorizada (p<0,001). Os resultados falsos negativos em relação à acidose neonatal, tanto da análise visual quanto da computadorizada, corresponderam, em sua maioria, a intercorrências nos partos, não previsíveis por este método propedêutico.

Conclusões: Concluiu-se que a interpretação tradicional da cardiotocografia anteparto não foi superada pela análise computadorizada e que deve-se continuar a utilizá-la para a avaliação do bem-estar fetal em gestações de alto risco.