
Indicações Atuais da Cirurgia
Vaginal
A Experiência Brasileira

Autor- Sérgio Flávio Camargo- TEGO,
TEMa, TCBC-RS
Endereço para correspondência: Caixa
Postal 157
97.300-000 São Gabriel- RS
E-mail: scamargo@sgnet-rs.com.br
Para aqueles ginecologistas que acreditam
que a habilidade de operar por via vaginal é a que os diferencia
dos demais cirurgiões, e também a abordagem minimamente
invasiva ideal para uma paciente com o perfil sócio-econômico
da maioria das mulheres brasileiras, tentaremos sintetizar (com
as inevitáveis limitações) as publicações nacionais já
existentes(1º semestre 2000), visando motivá-los a
novos estudos por facilitação da pesquisa bibliográfica
decorrente.
Até alguns anos atrás, a via vaginal era
utilizada com as seguintes indicações e técnicas:
- A histerectomia vaginal era
reservada para casos de prolapso uterino
completo. Quando este era apenas da cérvice,
dava-se preferência à Cirurgia de Manchester
(Donald-Foterghill), que consistia na amputação
daquela, com transposição dos ligamentos
cardinais.
- A correção das distopias
genitais (retocele, cistocele, etc...) era feita
pelas chamadas perineoplastias, geralmente
reservadas para os jovens médicos em formação,
a partir de conhecimentos anatômicos
deficientes, diagnósticos superficiais e,
princípios técnicos uniformes para todos os
casos, que pouco mais eram do que mero
estreitamentos do intróito vaginal, com índices
de recidivas previsivelmente elevados.
- Para a incontinência
urinária aos esforços, a abordagem vaginal
limitava-se a um reforço posterior, na linha
média, da junção uretro-vesical (técnica de
Kelly e variantes), com índice de sucesso a
médio prazo bastante inferior ao que se
conseguia por via abdominal, com a técnica de
Burch.
Embora ainda sub-utilizada no mundo inteiro
e, em nosso país em particular, desde o final da década de 80 a
via vaginal vem reconquistando espaço que foi seu nos
primórdios da cirurgia ginecológica, a partir de trabalhos
internacionais anatômicos, funcionais e técnicos que
revigoraram antigos conceitos e introduziram novos, propiciando o
surgimento de uma "nova" cirurgia vaginal, constituída
entre outros aspectos, pelos que se seguem:
- A histerectomia vaginal passou
a ser realizada para as mesmas indicações da
abdominal, principalmente miomatose; em casos sem
prolapso; com cirurgia pélvica prévia e, em
nulíparas, com as vantagens da ausência de
cicatriz, mínima abertura peritoneal ou manuseio
de alças, menor uso de analgésicos,
deambulação e alta hospitalar precoces, com
custos diminuídos.
- Os conceitos de White (1909)
que retornaram com Richardson (1976) trouxeram
novas luzes sobre o relaxamento pélvico e os
defeitos paravaginais. As dissecções em
cadáveres com tecnologia revolucionária
realizadas por DeLancey, Rogers e Richardson, nos
apresentaram ao sistema de sustentação e apoio
constituídos pelos diversos níveis da fascia
endopélvica, permitindo tratamentos
defeito-específicos. A introdução da fixação
da cúpula vaginal ao ligamento sacroespinhoso,
por Nichols e Randall (na América) veio
solucionar o complexo problema do prolapso
pós-histerectomia. A importância funcional dos
eixos vaginais e suas estruturas-chaves como a
placa dos elevadores, o anel pericervical e corpo
perineal, orientou reconstruções cirúrgicas
mais precisas, fazendo em seu conjunto que
surgisse a cirurgia reconstrutiva pélvica,
apoiada em todos esses novos paradigmas.
- Os resultados inconstantes do
tratamento da incontinência urinária aos
esforços(IUE), fez surgir uma nova
especialidade- a uroginecologia- reunindo
ginecologistas, urologistas, fisioterapeutas e
outros interessados na área, que se expandiu
para muito além da IUE. Nós os ginecologistas,
que empiricamente usávamos os procedimentos
anteriormente relatados, fomos apresentados à urodinâmica
e seus testes; às entidades como deficiência
intrínseca do esfíncter uretral, ou as
contrações não-inibidas do Detrussor, que
no passado muitas vezes confundimos com a IUE e
tratamos de forma inadequada. Para os casos
complexos ou de etiologia mista, foram também os
urologistas que nos propuseram os slings
vaginais, autólogos ou heterólogos,
permitindo que nas reconstruções pélvicas
complexas os mesmos fossem anexados ao
armamentário cirúrgico vaginal
Inicialmente de forma tímida, mas
atualmente com crescimento progressivo, a literatura brasileira
sobre os tópicos acima relacionados vem sobremaneira
facilitar a pesquisa e o estudo dos especialistas motivados pelos
mesmos. Faremos uma amostragem a partir de duas teses nacionais
da década de 90, separadas entre si por 7 anos:
- Histerectomia Vaginal em
Pacientes Não Portadoras de Prolapso Uterino-
Estudo de 370 casos. Autora: Albanita Leite
Soares Macedo (RN). Tese Apresentada ao Instituto
de Ginecologia da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, para a obtenção do grau de Doutor-
1991.
- Histerectomia Vaginal em
Pacientes Sem Prolapso Uterino- Análise de 312
casos. Autor Octacílio Figueirêdo Netto
(PR). Dissertação apresentada ao Curso de
Pós-Graduação da Universidade Estadual de
Londrina, como requisito final à obtenção do
título de Mestre- 1998.
Diversos trabalhos nacionais foram escritos
sobre histerectomia vaginal(Carvalho, Celani, Oliveira,
Salvatore, Silva, Simões, Souen e Souza), versando sobre
indicações tradicionais ( prolapso), complicações e,
revisões casuísticas retrospectivas de serviços
universitários. Pinotti (9), em 1970 já divulgava técnica com
as vantagens da via vaginal, mesmo para pacientes sem prolapso.
Gomes da Silveira e Souza (6),em 1985 relataram novas
indicações para a histerectomia vaginal, além do prolapso.
Posteriormente apareceram trabalhos isolados como de Pereira(8),
Camargo (1, 2), Macedo e cols(7) e Rubinger e cols.(10), aonde
são enfatizados estes aspectos inovadores da cirurgia vaginal e
incentivada sua aplicação.
O grande impulso, entretanto, viria a
ocorrer com as técnicas para as assim chamadas
"histerectomias vaginais difíceis" ( principalmente
por miomas volumosos) como o morcelamento, o coring intramiometrial,
a hemissecção, aprendidas no exterior , trazidas e divulgadas
no Brasil principalmente por Figueirêdo, Figueirêdo Netto(3, 4,
5 ) e Pereira, da Universidade Estadual de Londrina aos seus
alunos; nos seus cursos teórico-práticos e, em trabalhos
científicos. Já estão em andamento e encaminhados para
publicação, artigos que poderão trazer para a literatura
médica brasileira as indicações, técnicas e resultados da
aplicação dos princípios da reconstrução pélvica, como o
reparo paravaginal, a fixação vaginal ao ligamento
sacroespinhoso ou aos úterossacros, o mini-sling vaginal e a
cirurgia do laço uretral para a incontinência urinária aos
esforços, etc...
Ao materializarem de forma adequada ao meio
uma experiência internacional relativamente nova, mas de
utilidade altíssima para as pacientes do nosso país, motivando
os colegas à mesma, que assim poderão beneficiar as mulheres
brasileiras, estes autores se enquadram na filosofia do grande
Gilberto Freire de que " o saber deve ser como um rio, cujas
águas doces, grossas, copiosas, transbordem do indivíduo, e se
espraiem, estancando a sede dos outros. Sem um fim social, o
saber será a maior das futilidades".
Bibliografia Nacional Sugerida Sobre
a Matéria
- Camargo SF, Figueirêdo Netto O .
Convicções e Verdades em Cirurgia Ginecológica .
Femina 1998; 26(7): 603-06 .
- Camargo SF. Cirurgia Ginecológica-
Propostas e Refinamentos, 2ª Edição, Fundo
Editorial Byk, São Paulo, 1998.
- Figueirêdo Netto O. , Figueirêdo O.
Histerectomia Vaginal com Morcelamento em Útero com
Volume de 1.000 cm3 . Rev Bras Ginec Obstet
1997; 19(9): 711-14
- Figueirêdo Netto O e cols.
Histerectomia Vaginal: O Laparoscópio é Necessário?
Rev Bras Ginec Obstet 1998; 20(9): 537-40.
- Figueirêdo Netto O , Figueirêdo O .
Histerectomia Vaginal em Úteros Grandes: Vantagens,
Seleção de Pacientes e Técnicas de Morcelamento.
Femina 1999; 27(10): 763-70.
- Gomes da Silveira GP, Souza SLC.
Histerectomia Vaginal: Revisão de 84 Internações
Sucessivas. Femina 1985; 13(4): 313-25.
- Macedo ALS, Simões PM, Macedo FLS.
Histerectomia Vaginal em Pacientes Não-Portadoras de
Prolapso Uterino: Estudo de 370 Casos. Rev Bras Ginec
Obstet 1995; 17(10): 1011-19.
- Pereira JM. Operação Combinada:
Vaginal e Abdominal. Uma Nova Via de Acesso. J Bras
Ginecol 1982; 92(6): 337-8.
- Pinotti JA. Histerectomia Vaginal pela
Técnica de Ingiulla. Ginecol Obstet 1970; 29: 14-27.
- Rubinger TM, Reis JHP, Magos AL.
Histerectomia: Análise das Diferentes Vias de Acesso.
Gina 1995; 1(1): 9-21.
sergio.ramos@obgyn.net
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